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SOU RAIZ
(Cora Coralina)

Sou raiz, e vou caminhando

sobre as minhas raízes tribais.

Velhas jardineiras do passado …

Condutores e cobradores, vós me levastes de mistura

com os pequenos e iletrados, pobres e remendados …

Destes-me o nível dos humildes em tantas lições de vida.

Passante das estradas rodageiras, boiadeiros e comissários,

aqui fala a velha rapsoda.

Escuto na distância o sonido augusto do berrante que marca

o compasso das manadas que vão pelas estradas.

O mugido, o berro, o chamado da querência, a aguada,

o barreiro salitrado, a solta, o curral, a porteira,

a tronqueira, o cocho, o moirão, a salga, o ferro de marcar,

rubro, esbraseado. A castração impiedosa.

Eu sou a gleba e nada mais pretendo ser.

Mulher primária, roceira, operária, afeita à cozinha,

ao curral, ao coalho, ao barreleiro, ao tacho.

Seguro sempre nas mãos cansadas a velha candeia

de azeite veletudinária e vitalícia do passado.

Viajei nas velhas e valentes jardineiras

do interior roceiro, suas estradas de terra,

lameiros e atoleiros, seus heróicos e anônimos condutores

e cobradores, práticos, sabidos daqueles motores desgastados,

molas e lataria rangentes.

Santos milagreiros eram eles. Onde estarão?

Viajei de par com os humildes que tanto me ensinaram.

Viajantes das velhas jardineiras, meus vizinhos

das estradas viaje iras …

Meus trabalhadores: Manoel Rosa, José Dias, Paulo, Manoel,

João, Mato Grosso, plantadores e enxadeiros, meus vizinhos sitiantes,

onde andarão eles?

Andradina, Castilho, J aboticabal, comissários e boiadeiros, tangerinos,

esta página é toda de vocês.

Fala de longe a velha rapsoda.

Introdução ao instante
(João Cabral de Melo Neto)

Podiam-se notar uma ausência completa de transformações e um

monarca asiático em visita a Londres.

Crimes invisíveis sob a lua foram revelados e alguns dos movimentos

iniciais jamais pressentidos vieram à tona.

Para sempre permanecerão nos pólos mais afastados leões de pedra

Impenetráveis como esfinges.

POEMA DO AMOR SEM EXAGERO
(Joaquim Cardozo)

Eu não te quero aqui por muitos anos

Nem por muitos meses ou semanas,

Nem mesmo desejo que passes no meu leito

As horas extensas de uma noite.

Para que tanto Corpo!

Mas ficaria contente se me desses

Por instantes apenas e bastantes

A nudez longínqua e de pérola

Do teu corpo de nuvem.

FORA DE LINHA
(Donizete Galvão)

Os homens obsoletos foram dispensados
como candidatos a recrutas, por excesso de contingente.
Os homens obsoletos vagam qual zumbis
em praças, parques e estações de metrô.
Os homens obsoletos alimentam-se de jornais
e engordam nos sofás diante da televisão.
Os homens obsoletos cumpriram as exigências:
faculdade, inglês e cursos de pós-graduação.
Os homens obsoletos mantiveram-se jovens
com dietas, ginástica e oficinas de auto-estima.
Os homens obsoletos tiveram bloqueados
seus crachás, suas senhas e cartões de crédito.
Os pais não querem os homens obsoletos.
— Ah, quanto dinheiro investido em sua educação!
Os amantes não querem amar os homens obsoletos
porque estes têm a pele com gosto de ferrugem.
O mercado não absorve os homens obsoletos,
pois não existe demanda para a exportação.
Não há como reciclá-los para que se encaixem
nos mutáveis programas de reengenharia.
Terapeutas recomendam aos homens obsoletos
que ocupem o tempo ocioso nos museus e galerias,
nas paróquias ou mesmo em clubes de filatelia.
Os homens obsoletos caíram em desuso
como os chapéus, as galochas e o jogo de bilboquê.

felicidade

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