Pedras na beira do rio
(João de Moraes Filho)
PEDRA RETORCIDA
Durante algum tempo,
hesitei abrir aquela porta.
O sentido de toda cidade
estava atado, como um nó,
lá dentro. Talvez fosse
o que jamais procurasse:
o sentido das coisas
explicadas por trás das portas.
Algumas Ruas também
hesitei atravessar.
Eram incansáveis e longas,
como as noites brincadas
lá fora, onde tudo mais cabia.
Em verdade,
nada procurava
além de um pequeno gole
guardado ou esquecido
por trás daquela porta verde:
sem trancas, maçanetas e levemente arranhada
com a dor de abri-la.
Os olhos esverdeados
acompanhavam a inquietação do vento
se infiltrando pela porta exilada
com quem fala: ó de casa!
(As Ruas atravessam o tempo não vencido.)
Aquela porta que hesitei abrir
largou mão de sua fronteira
e deu lugar a janelas
que me assombram pacientes,
até que o frio as feche novamente.
Faz frio por detrás das portas retorcidas;
o outro nos decifra,
enquanto se esconde.

João consegue transmitir um lirismo envolvente na poesia.
No trecho que relata “Durante algum tempo, / hesitei abrir aquela porta.”, pude perceber que houve em um certo momento uma fuga da realidade, do que estava atrás da porta, do que poderia se ver nas ruas, do medo em experimentar ou vivenciar coisas novas. Do medo em se mostrar, em ser visto.
Um belíssimo poema!